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Artigo: Memória e história no combate ao racismo

De forma especial, o dia 20 de novembro remete à memória de luta e resistência de Zumbi dos Palmares, morto em 1695 no mesmo dia do mês de novembro.
Artigo:  Memória e história no combate ao racismo Denunciar o racismo e outras formas de violência e discriminação a que estão submetidas minorias políticas tem sido, não raras vezes, taxado pejorativamente como “vitimismo” por segmentos da sociedade e mesmo por parcelas de nossos representantes. O termo vem sendo francamente empregado para desqualificar e deslegitimar demandas sociais de grupos sub-representados politicamente. A carência de debate mais aprofundado e crítico bloqueia a compreensão sobre problemas complexos, reduzindo-os de forma preconceituosa e simplista a “chavões” como o termo “vitimismo”. Em contraponto, conscientizar sobre a memória de resistência da população negra significa resgatar a sua história coletiva e a biografia de homens e mulheres que lutaram em prol da liberdade e do reconhecimento da dignidade da vida do povo negro.Neste sentido, o mês de novembro foi escolhido para homenagear a luta e resistência do povo negro. De forma especial, o dia 20 de novembro remete à memória de luta e resistência de Zumbi dos Palmares, morto em 1695 no mesmo dia do mês de novembro. Zumbi se tornou líder da resistência do Quilombo dos Palmares, localizado na região em que atualmente se encontra o Estado de Alagoas, antiga Capitania de Pernambuco, no Nordeste do país. Palmares serviu de exemplo e inspiração para a organização de diversos quilombos, dando ainda mais vigor às lutas por libertação e resistência ao escravismo. Ainda hoje continuam a existir comunidades quilombolas pelo Brasil, lutando pelo reconhecimento da propriedade de suas terras e o respeito à sua existência. Organizações quilombolas não são e jamais foram, portanto, espaços de vadiagem como querem fazer crer alguns. Ao contrário, são símbolos de liberdade e da resistência ao escravismo e outras formas de opressão.O tema “história e memória” nos impõe o dever de falar também de Dandara dos Palmares, mulher negra que lutou ao lado de Zumbi para proteger a organização quilombola, símbolo da luta contra a escravização e desumanização do povo negro. Seu amor à liberdade foi tal que, segundo relatos, preferiu o suicídio, atirando-se de uma pedreira, a ter que viver escravizada ou presa. Dandara morreu em 6 de fevereiro de 1694, tendo participado ativamente das lutas de resistência em nome da segurança e liberdade do Quilombo dos Palmares. Apesar do ranço machista e patriarcal presente na sociedade brasileira, que frequentemente bloqueia o devido reconhecimento da política realizada por mulheres negras, Dandara deve ser lembrada enquanto símbolo de resistência e amor à liberdade, assim como Zumbi, liderança espiritual e militar quilombola.Relembrar Zumbi e Dandara é buscar este outro lado de nossa construção histórica enquanto povo brasileiro. Falar de Palmares é falar sobre resistência e liberdade. Zumbi e Dandara não foram maiores que Palmares, pelo contrário, foram filhos de uma organização política, cultural e social que mostrou ao mundo colonial que era possível construir associações coletivas fora das bases escravistas. Palmares constituiu uma experiência de organização política que ameaçava o criminoso sistema de dominação escravista, pois apontava para outras possibilidades de vida coletiva livre.A escravidão negou a humanidade e a juventude a negros e povos africanos, abreviando suas vidas e legando sua influência e marca na história brasileira até os dias de hoje. Ainda não conseguimos, enquanto sociedade, dimensionar este período brutal e violento de nossa história. Deste modo, novembro adquire sentido especial ao constituir o mês em que se promove o Dia Nacional da Consciência Negra, o FECONEZU (Festival Comunitário Negro Zumbi), a Semana da Capoeira e outras atividades de memória, cultura e política do povo negro. Essas atividades devem ser encaradas enquanto construção social e política de um discurso, crítico, isto é, contra-hegemônico e descolonialista, sobre a história e memória coletivas.Todos os povos têm direito à história e à memória. Trazer outro olhar sobre o negro e sua história não deve, portanto, ser visto como segregacionista ou forma de exclusão. É parte essencial do enfrentamento ao racismo a perspectiva crítica e historicizada, pois fomenta abordagens que abrem espaço à fala de populações até então alijadas da construção oficial de narrativas e discursos sobre o passado. Rememorar é um ato político e de resistência coletiva, instrumento de valoração e construção positiva da identidade e da autoestima de negras e negros no Brasil.As diversas formas de racismos na sociedade brasileira engendram processos de violência e padronização de indivíduos que os põem em situação de inferiorização. Por meio da representação ridicularizada (expressa em piadas de cunho racial) e estereotipada (em que se realçam pejorativamente atributos culturais e físicos), estabelecem-se processos de desumanização e criminalização do negro a partir do realce depreciativo de características. Neste tipo de representação social negativa, informa-se sobre um suposto erro de ser e existir enquanto negro. É importante, portanto, compreender que não há inocência nestes processos, pois são profundamente nocivos à construção positiva da autoestima ao engendrarem formas de desvalorização e desrespeito.No nível político, o racismo dificulta a construção da cidadania e afeta diretamente a qualidade da democracia, pois a igualdade, elemento estruturador de ambas, é inviabilizada pelo discurso de exclusão. Sociologicamente, o racismo cria representações hierarquizadas de sujeitos a partir de grupos sociais definidos, regulando e bloqueando a participação desses grupos na sociedade. É preciso identificar a complexidade do abismo racial cristalizado e elaborar mecanismos equitativos de redução das desigualdades.O Brasil ainda não resolveu e não prestou contas de seu passado colonial, o que trouxe diversas dificuldades para a construção da história, memória e identidade coletivas. Ao Estado brasileiro urge acertar as contas com sua história colonial e escravista, a fim de viabilizar a construção da cidadania e da qualidade da democracia, livres das amarras da desigualdade racial. Os negros deste país ainda são preteridos dos ganhos sociais e os primeiros a sofrer com o aumento das desigualdades. Neste aspecto, a reconstrução da memória coletiva, o reconhecimento do negro na história brasileira e a promoção de políticas afirmativas são elementos nevrálgicos para superar nossos entraves estruturais.A invisibilidade é uma morte da memória. Neste sentido, as ações do Poder Público na promoção de políticas com teor afirmativo e positivo são fundamentais, incidindo diretamente na sociedade e nas formas de representação da população negra na história oficial. A ascensão das políticas afirmativas, sua ampla discussão na sociedade, incentivada em diversos níveis de atuação pelo Poder Público, e o reconhecimento de sua legitimidade pelo STF, podem ser tidos como divisor de águas no combate ao racismo no Brasil. Ao decidir favoravelmente pelas cotas enquanto instrumentos de promoção da equidade e redução progressiva de desigualdades históricas e cristalizadas na estrutura social, o Estado brasileiro reconhece oficialmente que há um problema racial renitente e perene na sociedade brasileira, podendo dar início a uma agenda pública mais organizada e bem definida de combate à discriminação e desigualdades raciais.No Brasil, a cor da pele ainda determina as chances de uma pessoa chegar à universidade, ter acesso a serviços de qualidade e mesmo de prolongar sua vida. Segundo o Atlas da Violência do IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) 2017, de cada 100 pessoas assassinadas no Brasil, 71 são negras. Jovens negros e de baixa escolaridade constituem, segundo a pesquisa, o grupo de maior risco no que tange aos homicídios. Quando o recorte gênero é adotado, os números da violência racial permanecem altos. Na pesquisa supracitada, enquanto o assassinato de mulheres declaradas como não-negras diminuiu 7,4%, o mesmo tipo de violência subiu 22% entre as negras no período entre 2005 e 2015 em todo o país. Levando em consideração apenas o critério racial, os negros têm, em média, 23,5% mais chances de serem vítimas de homicídio, números que revelam praticamente um estado de guerra vivido por essas populações.O Movimento Negro criou e consolidou pautas e conquistas de reparação, respeito e reconhecimento, apontando caminhos para o combate à violência racial na sociedade brasileira. É indispensável a participação das instituições democráticas nesta agenda, dada sua abrangência e universalidade. No atual contexto de ascensão de discursos intolerantes em nível global, é preciso recriar vínculos, valores compartilhados e modos de vida calcados no respeito e na valorização da vida humana. É justamente entender que há uma história coletiva e compartilhada, e que eu apenas sou porque nós somos, como nos ensina a filosofia africana de ubuntu. Valorizar o respeito e a solidariedade, humanizando nossas relações.É preciso pensar a história como algo muito maior do que nós, maior que cada indivíduo, entendendo que muitos fizeram seu papel de resistência histórica. O Movimento Negro optou por pensa o universal, isto é, o que nos vincula a uma humanidade. Desde a diáspora o negro está em movimento e rediscutir a condição humana é sua pauta fundamental, o que envolve pensar o sujeito fora das categorias de opressão. Sem romantismos ou ingenuidades, lidar de maneira séria com todo um universo que nos conecta a uma mesma dimensão humana.O que quer este corpo negro é colocar na ordem do dia a discussão sobre os processos de desumanização e invisibilização. Pensar os problemas sociais de forma complexa, a partir da interseccionalidade das desigualdades, que significa compreender que as diversas formas de exclusão e violência atingem, de modo distinto, indivíduos e seus grupos. Urge refletir de maneira complexa sobre problemas estruturais das sociedades modernas a fim de evitar o ressentimento e a frustração que têm engendrado discursos de ódio e exclusão. Pensar o universal nestes termos implica, inevitavelmente, pensar a partir de lugares e posições sociais não hegemônicas, da mulher negra e do homem negro.A história do escravismo moderno europeu é a história da morte de muitas juventudes africanas. População negra sem infância, porque foi-lhe tirado o direito de ter família até os dias de hoje. Onde está relegada a memória da contribuição da população negra para a humanidade e para o país? É preciso recontar essa história. Não se trata, portanto, de uma tentativa de inversão de hierarquias, mas da progressiva liberdade humana em seu sentido mais universal. Rechaçar o projeto antigo de invisibilização. Estamos aqui para resistir, recontar e contestar uma história... O corpo negro é elemento contestador de uma ordem de coisas, contestador da desumanização, do desrespeito, de memórias invisibilizadas. É preciso questionar, refletir, rememorar e reconstruir essa história, que é parte da própria história universal do homem.Ser negro não é apenas uma questão de pele. Constitui um processo de autoafirmação. Implica consciência e descolonização. É o desafio de se tornar negro e compreender que está em movimento e deve resistir e existir. Tal processo requer este incremento de memória e história, sem o qual se perdem referências de autorrespeito, autoestima, consciência do próprio valor e do valor de sua história negra. Ninguém se incomoda com o que não existe. Estamos aqui para afirmar que existimos e resistimos, que não mos esquecemos de nossa história, que somos parte da história. Reclamar a memória de Palmares significa também isto: questionar, contestar, resistir... Nas palavras de Frantz Fanon: Oh meu corpo, faça sempre de mim um homem que questiona. # Tailon Rodrigues Almeida,mestrando em Ciência Política pela UFSCAR egraduado em Ciências Sociais pela UNESP/Araraquara