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Artigo exclusivo: Brasil – 130 anos da Abolição

11 de maio de 2018


O Brasil é um país contraditório, especialmente quando dá as costas aos seus nexos históricos e em especial as mudanças de conjunturas em nossa história. Ao nos depararmos com as mudanças ocorridas, principalmente, nas passagens entre o sistema colonial, a monarquia e a república velha, pouco se fala sobre a escravidão, esta fase de nosso desenvolvimento enquanto povo é abreviada. E esta abreviação e falta de apropriação causa seqüelas em nosso tecido social que até hoje não conseguimos equacionar e não nos permite caminhar de fato para a democratização de nosso país.

A grande maioria da população é vítima de uma classe dominante que desde a nossa fundação enquanto povo vem nos golpeando friamente com as suas sutilezas. Assim, como hoje vivenciamos um período conturbado em nossa história, decorrente dos ecos de 2013, quando a população se levanta e soma à causa dos estudantes em prol do movimento Passe Livre, e vão às ruas, em busca de respostas as suas demandas populares: sutilmente somos golpeados, ou seja, a casta dominante toma para si as demandas populares e num movimento pensado e bem orquestrado toma para si o poder, culminando nos eventos de 2016.

Neste processo imprime na grande maioria da população a sua semântica fascista, o seu conservadorismo estamental e seu discurso de ordem e progresso, que, em prol de salvar a economia da berlinda e de uma crise iminente, nos diz que é preciso cortar direitos sociais e polariza seu discurso atacando seus inimigos declarados, geralmente a sua oposição relacional. Isto é um fato recorrente em nossa história e um dos grandes movimentos que legitimam esta ideia é o 13 de maio.

A Abolição não foi um movimento de base popular humanista e libertária, pelo contrário, por necessidades econômicas se forçou a pressão pelo trabalho livre em contrapartida ao trabalho escravo. Neste movimento a elite agrária adota os princípios liberais, importa mão de obra imigrante e joga a população negra em um abismo, que até hoje a conta-gotas estamos caminhando para superar.

O dia 13 de maio de 1888, em seu momento histórico, foi o dia mais importante na vida de um povo que fora escravizado por mais de 400 anos e na euforia do momento promovia a vitória de um movimento abolicionista que vinha lutando contra a escravidão desde o seu início, nas terras invadidas e espoliadas por Portugal, que hoje chamamos de Brasil.

Foram muitas revoltas, lutas de resistência e movimentos contra esta abominação de nossa história e não podemos esquecer-nos de muitos atores que dedicaram as suas vidas em prol da causa da liberdade do povo que fora legado a nefanda instituição da escravidão. Homens e mulheres, como o advogado negro Luiz Gama, a negra Dandara e seu consorte Zumbi dos Palmares, a negra Luíza Mahin, o jornalista negro José do Patrocínio, o poeta negro Castro Alves, o ferreiro negro Manoel Congo e muitos outros que imprimiram em nosso DNA social a luta pelo reconhecimento e dignidade do povo negro.

A Lei Áurea corou o sonho de muitos abolicionistas, foi o primeiro passo na luta pela integração do povo negro à sociedade brasileira; tornava o trabalhador escravizado em cidadão livre. Na realidade a abolição legou ao povo negro escravizado a ressaca do dia seguinte. Ao raiar do novo dia, o 14 de maio de 1888, legou ao povo negro liberto a condição maldita de sua existência e futuro. O 13 de maio de 1888 lhes tinham dado a liberdade no papel, mas, na prática, faltou ao povo negro liberto a escolarização, o acesso as terras, a integração no processo de trabalho livre e assalariado, a cidadania de fato e o reconhecimento de sua dignidade.

Os libertos tinham diante de si um dilema angustiante, ou seja, ao acordarem do transe e da embriaguez da Lei Áurea só tinham dois caminhos a seguir – a estrada ou a fazenda. A falta de um projeto de nação à época e s leis de terras que não lhes permitiu o acesso, lançara o povo negro em uma diáspora que perdurou por muito tempo, sendo reconhecido minimamente com a inclusão do trabalhador negro em cargos de baixa remuneração na sociedade de classes de nosso processo de capitalismo dependente e industrial em idos das décadas de 1950/1960.

A população negra fora jogada ao léu e a própria sorte e, neste processo, sem terras e trabalho, foram marginalizados e desvalorizados em todos os aspectos de sua vida sociocultural e socioeconômica. O 14 de maio de 1888 criou no imaginário popular a condição nefanda do povo negro. E por causa, deste processo são vítimas do preconceito de cor, do racismo e da pobreza que perdura fortemente até os nossos dias atuais.

O povo negro foi vituperado em suas matrizes religiosas e foi perseguido pelas leis de vadiagem impostas pelos governos republicanos, onde muitos foram recolhidos à cadeia e aos hospícios. A obra da escravidão, essa maldita herança de nosso passado reflete em nosso atual tempo histórico e seus ecos ressoam cada vez que nossas juventudes negras são assassinadas na periferia. O sangue derramado, outrora nos troncos e nas ações violentas da casa grande, encontra ressonância na extremada violência da PM e no genocídio escancarado de nosso povo.

A abolição representou para o povo negro apenas o direito de ser livre para escolher entre a sua condição de miserável nas fazendas em que outrora vivia, ou, viver sobre a opressão da tirania q eu foi legado, sem direitos e sem reconhecimento de sua dignidade. O 13 de maio entrou para a história do Brasil, como algo digno das grandes nações modernas, mas, não a do povo negro, a este, depois da abolição lhes foi legado o esquecimento e o sofrimento; subalternaram-lhes a sua importância na construção de nosso país.

Claudemir Carlos Pereira
Graduado em Ciências Sociais
UNESP Araraquara/SP

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