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‘Sem Lourdes Prada, eu não teria escrito 45 livros, viajado o mundo’, afirma Ignácio de Loyola Brandão

5 de março de 2018


“Por sua causa, Lourdes, escrevi 45 livros, fui jornalista, corri o mundo.” É dessa forma que o escritor e jornalista araraquarense Ignácio de Loyola Brandão descreve a importância que a professora Lourdes Apparecida Carvalho Prada teve em sua vida pessoal e profissional.

Lourdes Prada morreu na quinta-feira (1º) da semana passada, aos 94 anos, em Araraquara, após décadas de dedicação ao magistério. Em suas crônicas e artigos, Loyola Brandão sempre homenageou as professoras Lourdes e Ruth Segnini, grandes responsáveis por seu aprendizado escolar.

“Devo minha carreira a Lourdes Prada e a Ruth Segnini, professoras que me ensinaram as primeiras letras. Mestras por instinto e paixão”, escreveu Loyola Brandão em artigo enviado à Secretaria Municipal de Comunicação (confira a íntegra ao final deste texto).

O escritor destaca que Lourdes não apenas alfabetizava os alunos, mas estimulava a reflexão e, de certa forma, a inquietação com os problemas do mundo. “Eu tinha 9 anos. A professora Lourdes tinha dado o tema da redação. ‘Vão escrever sobre o bairro em que moramos. Não quero historinhas bobas de cachorro na rua, briga de moleques, de quem namora quem. Contem um problema. Falem do que está escondido, do que as pessoas têm vergonha, medo. Desocultem’”, diz Loyola.

“Naquele momento recebi a primeira lição para um escritor ao longo da vida: desocultar. Eliminar o oculto, eliminar a sombra, o que não é visível, mas nos afeta, incomoda, nos violenta”, conclui. “Continuarei ‘desocultando’ até o fim, agora vigiado por Ruth Segnini.”

Em outra passagem contada por Loyola, a professora pediu a cada aluno que anotasse algo curioso que ocorria no bairro: “Quero ver se sabem observar”, dissera Lourdes aos estudantes. Pois um deles, Zeberto, escreveu sobre a falta de água e recebeu a nota máxima — a mãe dele era lavadeira e sofria com o problema.

“Escrever é desenvolver a observação, capturar a realidade, buscar na memória as lembranças. Dia a dia, ela [professora Lourdes] nos fornecia as ferramentas com que trabalhei a vida inteira”, relata Loyola.

Uma das ferramentas é a fantasia. Uma vez, um aluno perguntou por que um colega recebia nota máxima se ele falava de girafas com pescoço de cem metros, algo irreal. “Também vou escrever só bobagem”, protestou o aluno, segundo relato do escritor. Para Lourdes, não era bobagem. “É a imaginação, a fantasia. São elas que nos fazem suportar a vida”, ela dissera.

Há duas semanas, o escritor araraquarense participou da 19ª Correntes d’Escritas, em Portugal, e homenageou suas duas eternas professoras em um texto lido a 700 pessoas, sendo cerca de cem escritores.

“’A linguagem mostra que tipo de homem você é’”, me dizia sempre Lourdes. Quando li esta frase, as centenas de professoras, vindas de vários pontos de Portugal, me interromperam e aplaudiram. Aplaudiram Lourdes e Ruth”, relata Loyola Brandão.


Não parou de ensinar

Silvio Prada, um dos filhos de Lourdes, conta que a mãe nunca deixou de ensinar, mesmo após a aposentadoria do magistério. Seus ‘alunos’ passaram a ser os netos. “Ela ajudava os netos nas tarefas de escola. Não conseguiu parar de ensinar”, explica Silvio, que também foi alfabetizado pela mãe. “Ela foi, praticamente, a minha primeira professora, quando eu tinha cinco anos. Minha mãe me levava à Fazenda Salto Grande para assistir às aulas e ficar junto dela”, relata.

“Minha mãe foi muito especial. Era carinhosa com os filhos, com a família, sempre cuidou da gente com muito esmero, mas chamando a atenção quando necessário. Sempre respeitou as pessoas que trabalhavam com ela e era rigorosa sobre isso. Criou o hábito de que temos que respeitar os outros”, diz o engenheiro e advogado.

E não foi à toa que o senso crítico de Loyola Brandão foi estimulado pela professora. “Ela era extremamente política, acompanhava tudo. Gostava de discutir política”, explica Silvio Prada.

​​Marcou história

Para o prefeito Edinho, Lourdes Prada marcou história em Araraquara. “Com brilhantismo, Dona Lourdes foi a responsável pela alfabetização de boa parte de uma geração. Seu dom não será esquecido jamais pela nossa gente. Sua capacidade de transformar sonhos em realidade por meio da educação será, para sempre, exemplo para todos nós”, disse Edinho por meio de nota de pesar.

“Meus mais sinceros sentimentos aos filhos Silvio Prada, Maria do Carmo e Ana Maria, familiares e amigos. Meus sentimentos àqueles também que, através de suas mãos, puderam enxergar o mundo de outra forma”, afirmou.

35 anos de magistério

Lourdes Prada dedicou 35 anos de sua vida para o magistério. Vinda de São Sebastião do Paraíso (MG) aos nove anos de idade, ela se estabeleceu em Araraquara com a sua família no bairro do Carmo.

Foi lá que, aos 19 anos, recém-formada no Magistério, criou o “Externato São José”, na esquina da Rua Expedicionários do Brasil (Rua 8) com a Djalma Dutra, que na época chamava-se Avenida Guaianazes.

A professora passou por escolas estaduais em Araraquara e por escolas rurais da região. Sua aposentadoria, em 1976, ocorreu na Escola Estadual Antônio Lourenço Corrêa, na Vila Xavier, após estimular o ‘desocultamento’ e a fantasia de milhares de alunos.

Lourdes Prada com seus alunos, entre eles Loyola Brandão, em frente ao antigo Externato São José, na década de 1940 – Arquivo Pessoal

Confira a íntegra do artigo enviado p​elo escritor Ignácio de Loyola Brandão à Secretaria de Comunicação:

Sem Lourdes, eu não teria escrito 45 livros, viajado o mundo, conhecido gente, brigado por um Brasil diferente

Ignácio de Loyola Brandão


“Desocultamento.”
Aquela palavra foi uma paulada na classe. O que significava?
“Façam um desocultamento, quero ver.”
Eu tinha 9 anos. A professora Lourdes tinha dado o tema da redação. “Vão escrever sobre o bairro em que moramos. Não quero historinhas bobas de cachorro na rua, briga de moleques, de quem namora quem. Contem um problema. Falem do que está escondido, do que as pessoas têm vergonha, medo. Desocultem.”
“Essa palavra não existe, professora. Existe?”
“Existe agora. Escrevam cem vezes no caderno.
D E S O C U L T A M E N T O
Naquele momento recebi a primeira lição para um escritor ao longo da vida: desocultar. Eliminar o oculto, eliminar a sombra, o que não é visível, mas nos afeta, incomoda, nos violenta.

No dia 21 de fevereiro deste ano, às 15 horas, eu estava no palco do Teatro Garrett, em Póvoa de Varzim, Portugal, para fazer a conferência de abertura da 19ª Correntes d’Escritas. A Póvoa foi onde nasceu Eça de Queiroz, onde viveram Camilo Castelo Branco, Antero de Quental, Ramalho Ortigão. Ali nasceu também o poeta José Carlos Vasconcelos, editor do principal e superinformado Jornal de Letras, magno referencial. Eu estava emocionado e honrado, à minha frente havia 700 pessoas, sendo cem delas escritores de língua portuguesa e espanhola vindos de todas as partes, inclusive África e Índia. As Correntes este ano foram abertas pelo Ministro da Cultura de Portugal, Luis Felipe Castro Mendes, que fez um discurso nada formal, divertido e inteligente. Lá, os ministros vão, sabem ler, falar, têm cultura e se interessam por cultura. Confesso que estava feliz e tremia. Decidi começar de modo diferente.

Meu primeiro impulso foi uma fala solene. Só que não sou formal. A linguagem acadêmica nunca me deixou à vontade, não sei transitar por ela. Portanto, peço a paciência para com este que é um simples narrador. Lembro também de que estas Correntes homenageiam Luis Fernando Veríssimo, dos melhores humoristas da língua portuguesa, homem igualmente sem nenhuma solenidade, coloquial, certeiro na pontaria contra o ambiente obsceno que paira sobre nós no Brasil e no mundo.

De família remediada, meu pai era operário de uma ferrovia em Araraquara, cidade de 60 mil habitantes, interior do Estado de São Paulo, Brasil. Economizando nos cigarros e na cerveja dominical, meu pai comprava quatro livros por ano, mandados buscar na capital. Na minha cidade, não tinha livrarias. Os maquinistas ou chefes do trem traziam. Eu via meu pai lendo, concentrado. Católico, era ele que na igreja da paróquia fazia as falas em dias festivos, uma vez que os padres da congregação do Verbo Divino, vindos da Holanda, falavam um português horroroso, ninguém entendia nada. Via meu pai preparando os textos, falando, sendo aplaudido e comentado pelo que tinha dito. Isso me impressionava. Escrever, falar e ser aplaudido, reconhecido, respeitado. Foi a primeira visão que tive do oficio de escrever. Sei, vai nisso uma certa vaidade. Qual de nós não é?

Devo minha carreira a Lourdes Prada e a Ruth Segnini, professoras que me ensinaram as primeiras letras. Mestras por instinto e paixão. Além de vários outros do ginásio e científico. Professores. Não sei sobre outros países de língua portuguesa ou espanhola, mas no Brasil a profissão está em processo de degradação. A situação do Ensino brasileiro se agrava a cada momento. Neste ano, 410 milhões de reais, equivalentes a cento e um milhões de euros, acabaram de ser retirados das áreas de Educação e Saúde para financiar as campanhas eleitorais das Câmaras e Senado mais desprezíveis que tivemos na história.

Com espanto percebi que pertenci a uma das últimas gerações contempladas com um estudo organizado e eficiente. E tenho 81 anos. Certa vez, Lourdes deu a cada aluno uma caderneta, mandando que deveríamos anotar o que achássemos de curioso, divertido, interessante no bairro. “Quero ver se sabem observar.”  Um de nós, Zeberto, escreveu sobre a falta de água. A mãe dele era lavadeira e sofria, nosso bairro, periferia pobre, era mal servido. Zeberto tirou 100, a nota máxima. Lourdes explicou: “Foi o único que observou um problema importante. Pensem nisso quando escreverem. O lugar onde vivemos é o universo”. Ela tinha acabado de definir inspiração e foco do texto. Escrever é desenvolver a observação, capturar a realidade, buscar na memória as lembranças. Dia a dia, ela nos fornecia as ferramentas com que trabalhei a vida inteira. Aliás, penso, as ferramentas com que todos aqui trabalham.

Outra vez, ela pediu que procurássemos lembranças marcantes. Escrevi sobre as incursões que fazíamos pelos quintais nas segundas-feiras, quando todas as mulheres lavavam as roupas de casa, cama e mesa. Aquele era chamado dia de branco, sem nenhuma alusão racista. Lençóis, colchas e toalhas, roupas de baixo, tudo era branco. Nós, os moleques, os putos, sabíamos que nos varais do meio, escondidas e camufladas, estavam a secar as toalhinhas higiênicas, ou seja, os absorventes que as mulheres mesmo faziam na era pré-Modess. Apontávamos: esta é da Vanda, aquela da Nereide, a outra da Cidinha. E imaginávamos, sonhávamos. Lourdes me mandou esperar no fim da aula e me disse que me daria 100, porque meu tema era original, mas complicado. No futuro, eu teria de tomar cuidado, gente tentaria me policiar, punir. “Mas faça o que tem de fazer. Faça, apesar de tudo.”

Outra vez foi Ruth Segnini: “Nota 100 para quem fizer a melhor pergunta. E 100 para quem souber responder. E esse será o tema da redação.” Eu era de família católica, todos igrejeiros, missas e comunhões, indulgências. Havia uma questão que me martelava a cabeça. Desabafei: “Quem é o pai de Deus?”. A pergunta flutuou, ninguém disse nada. E a professora: “A redação vai ser essa: quem é o pai de Deus?”. Um desastre, a classe me xingou de tudo. Mas ganhei outro 100 apesar de ter escrito quatro linhas. Anos depois, Ruth me contou que escrevi algo assim: Um dia Deus quis saber quem era o pai dele, porque todo mundo tinha pai e mãe e ele não. Então saiu criando o mundo e procurando o pai. Ainda hoje procura. Parece que o pai de Deus desapareceu.

Fui um teólogo precoce! Naquele momento, Ruth me deu outra aula: “Nunca tenha medo. Escreva o que vem à cabeça e acha certo. Arrisque. O estranho e incompreensível, o inexplicável hoje, amanhã se esclarece. Ou não, ou nunca. Mas isso já é assunto”. Em meu novo romance, Serena Loucura, que sairá no Brasil em maio, pergunto: isto se passa no Brasil apenas? Ou no mundo? É ou não a realidade? Euclides da Cunha, em Os Sertões, definiu a Guerra de Canudos: “A vida normalizara-se naquela anormalidade.” Quando contemplo o mundo hoje, vejo que a vida se normalizou na anormalidade. Este novo romance é o desocultamento máximo que arrisquei na vida.

Voltemos. No terceiro mês, um aluno ficou intrigado: “Professora. Por que o Érico tira 100 se ele só escreve mentira? Fala de girafa com pescoço de cem metros, pinguim que tem joelho. Também só vou escrever bobagem”. Ela: “Não é bobagem. É a imaginação, a fantasia. São elas que nos fazem suportar a vida.” Lourdes tinha acabado de liberar minha cabeça para todos os voos.

A cada retorno à minha cidade, sempre visitei Ruth e Lourdes. Elas se orgulhavam do “menino” (porque mesmo aos 70 anos eu era chamado de menino), achavam estranhas minhas histórias e ousadias. No entanto, ao sair, me recomendavam: “Mas tome cuidado com a linguagem, o menino ainda comete errinhos!”. Jamais deixaram de ter dentro delas a paixão pelo ensino, cuidavam da linguagem, odiavam gírias, vírgulas mal colocadas, palavrões. A linguagem mostra que tipo de homem você é, me dizia sempre Lourdes.

Não me esqueço que, quando li esta frase, “a linguagem mostra que tipo de homem você é”, as centenas de professoras, vindas de vários pontos de Portugal, me interromperam e aplaudiram. Aplaudiram Lourdes e Ruth. À saída, vinham comovidas conversar comigo sobre ser professor.

Mal podia imaginar que pouco mais de dez dias depois, ao voltar ao Brasil, eu chegava no mesmo momento em que um WhatsApp de Joaquim Dragone entrou em meu fone comunicando a morte de Lourdes Prada aos 94 anos. Naquele mesmo momento me vi na Rua Oito com a então Guaianazes (hoje Djalma Dutra, seja lá quem foi este Djalma), no Externato São José. A pequena, mas boa escola de Lourdes Apparecida Carvalho Prada, mulher que segundo o Edinho Silva tinha o dom da educação, o dom da vida. Vinda de Minas Gerais, São Sebastião do Paraíso, ainda menina, com 9 anos, estabeleceu no bairro do Carmo. Foi lá que, aos 19 anos, recém-formada, criou sua escola, passou por escolas estaduais em Araraquara, também por escolas rurais da nossa região, demonstrando, sempre, seu amor pela profissão. Foram 35 anos de magistério. Aposentou em 1976 na Escola Estadual Antonio Lourenço Corrêa, na Vila Xavier. Por sua causa, Lourdes, escrevi 45 livros, fui jornalista, corri o mundo. Continuarei “desocultando” até o fim, agora vigiado por Ruth Segnini.

Lourdes Prada e Ignácio de Loyola Brandão em evento em Araraquara, nos anos 2000 – Arquivo Pessoal

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